terça-feira, 5 de junho de 2012

V

V - Interesse
"Os interesses particulares fazem esquecer facilmente os interesses públicos."
(Charles-Louis de Secondatt, barão de Montesquieu)

        Maldito despertador! Não detesto acordar cedo, mas detesto ser acordado por esse aparelho infernal...Resmunguei um pouco, xinguei - sempre acalma - e fui lavar o rosto. O dia seria longo, muita coisa seria nova... Meu humor estava maravilhoso!... Olhei para o espelho e vi a careta que fazia. Mudei a expressão. De ódio, foi para indiferença. Arrumei meu cabelo, escovei meus dentes, me vesti, juntei meu material escolar e desci para a cozinha. Minha mãe preparava o café.
        "Animado?" ela perguntou. Murmurei alguma coisa e me sentei à mesa. Minha mãe passou o café e encheu minha garrafa térmica; eu comia queijo.
        - Melhora esse humor. Hoje não é dia para estar revoltado.
        - Quer que saia com um sorriso estampado na cara? Não de manhã.
        - Como espera que faça amigos?
        - Já esperei alguma vez isso? - Como ela odiou ouvir isso. Fechou a cara.
        Todos da rua estudavam no mesmo colégio que eu estaria indo, e costumavam ir juntos. Alguns iam mais cedo, para fazer uma social, outros mais tarde, perto da hora da primeira aula. Gabriel disse que iria comigo, já que era meu primeiro dia. Queria ter um tempinho a sós com ele, para esclarecer umas coisas.
        Me despedi de minha mãe e saí de casa. O céu estava escuro - nublado! -, apesar das oito horas e tantas. Fechei meu agasalho, pois fazia frio. Ao dobrar a esquina, vi Gabriel se aproximando, e para minha surpresa e descontentamento, com sua amiga. Ela vinha com um sorriso - o mesmo que minha mãe recomendou - no rosto, mas não a tornava mais simpática, nem fazia parecer que era. "E aê", ele disse. Ela me deu um beijo, com lábios grudentos de gloss.
        Fomos caminhando. Como de praxe, as pessoas não falavam muito - não as normais. Letícia conversava e ria, quase num monólogo, já que nem eu nem Gabriel replicávamos direito. Quando chegamos ao colégio, ela foi para sua sala enquanto eu e Gabriel íamos até a coordenadoria para pegar minha grade de aulas. Dividiria a sala com ele em quase todas as aulas. Enquanto íamos para a sala, que ficava no segundo andar, ele falava de sua amiga. Chegamos à sala e sentamos ao fundo - o professor cuspia.Gabriel continuava falando de sua amiga, de como ela era legal, bonita, inteligente, engraçada, e eu sem entender pra quê falar aquilo. Ele falou dela bastante tempo, até a hora do almoço. Enquanto falava comigo - sobre ela, eu só ouvia - trocava torpedos com alguém.
        Durante o almoço, ele deixou o celular em cima da mesa da cantina, onde comíamos. Uma hora, levantou e foi buscar algo. Uma mensagem nova havia chegado, e, provavelmente, era da mesma pessoa da manhã 
toda. Não me contive e fui conferir:

"Letícia - 12:03
Jah flou pra ele q qro ficar cm ele?" (Reprodução fiel)

        Agora fazia sentido. Tudo havia ficado mais claro: interesse. Ela me notara quando cheguei na rua, e agora me queria. Gabriel era só o canal para isso. Ele não tinha simpatizado por mim? Era só por causa dela? Decepção.

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