VI - Obessão
"Não se deseja aquilo que não se conhece."
(Ovídio)
Broxei. Mesmo. Será que se Letícia não tivesse me querido, Gabriel não teria vindo falar comigo? Não podia expor isso, não era a hora certa. Se fosse falar, deixaria para quando o assunto viesse à tona. Ele voltou, conferiu a mensagem. Certamente notou que alguém tinha aberto-a, mas não falou nada. Apenas lançou um olhar dúbio a mim, e eu, simulado, respondi com o mesmo olhar.
Até o fim do dia, ele continuou falando de Letícia. Agora fazia sentido o porquê de toda aquela descrição - demasiadamente idealizada, beirando a perfeição. E já não ligava tanto pro que ele falava dela.
Quando as aulas acabaram e íamos embora, Letícia apareceu e se convidou para ir conosco. Gabriel disse que ficaria no colégio para resolver uns assuntos com o coordenador. Eu não pude deixar de ir com ela. E fomos, só eu e ela, mas eu não estava confortável com isso. Ela falava, muito, como sempre. O clima não estava me ajudando: começou a chover, e nós só tínhamos um único guarda-chuva. Quando o abri, ela se agarrou em meu braço, com tanta vontade que quase tomou-o para ela. E ela continuou falando. Até então, não me incomodava o falatório, mas ela entrou num assunto desagradável:
-Então... Você namora?
- Não.
- Tá ficando com alguém?
- Não também.
- Tá a fim de alguém?
- Não. Até porque, não deixei nenhum amor para trás na minha cidade natal, e não poderia gostar de alguém por aqui sem mal conhecer as pessoas, concorda?
- Haha. Você é um lindo mesmo.
Agora não daria pra evitar. Ela entraria naquele assunto, e eu não saberia o que responder. Em minha mente, já tinha feito um roteiro para essa cena, mas ela não o seguiria, afinal, além de não ser atriz, o roteiro só se passava em minha mente.
- Obrigado. - Corei um pouco. Me virei para ela para agradecer com um sorriso e me deparei com seu rosto colado ao meu. Seria uma linda cena para um filme babaca de adolescentes.
- Me beija? - Murmurou e começou a aproximar seu rosto do meu.
Eu via seus lábios se aproximarem e estava estático. Não sabia o que fazer. Muito se passou pela minha cabeça, muita coisa sem pé nem cabeça, aliás - daria um belo quadro surrealista, ou ainda um poema dadaísta - e eu não sabia se deveria recusar ou não. Eu nunca tinha beijado alguém, talvez porque nunca vi sentido em beijar estranhos ou porque nunca ninguém quis me beijar. Virei o rosto. Não pude ver sua expressão, mas aposto que foi decepção.
- Desculpa.
- Por que não?
- Porque não faz sentido. Se você gosta de mim a esse ponto, eu não.
O clima dentro do guarda-chuva ficou mais tenso e pesado que fora dele. Os trovões ao fundo não se comparavam ao que Letícia devia ter sentido de mim. Levei ela até a porta de sua casa, e ela se despediu com um simplório e medíocre "Tchau", que escapou quase que sem vontade de sua boca. Eu fui depressa para casa. Teria que refletir sobre o que acabara de acontecer.
Felizmente, aquela tarde seria tediosa. O pessoal não se reuniria: a maioria tinha prova(s) de recuperação no dia seguinte, e iam passar a tarde estudando. Sorte minha, precisava temperar aquela tarde chuvosa com um pouco de tédio. Não que eu goste de tédio, mas o tédio move os filósofos, e os filósofos refletem. E eu tinha o que refletir.
Cheguei em casa. Minha mãe não havia chegado ainda, e só chegaria tarde, já que havia um congresso, ou seria reunião? em seu trabalho. Fui para meu quarto. Me troquei e deitei em minha cama. Coloquei minhas coisas no criado-mudo e comecei a pensar no ocorrido, mas fui interrompido por uma mensagem de texto. Era Gabriel.
"Vc ñ ficou com ela? :/" - Fico um tanto irritado com quem digita assim.
"Não."
"Pq?"
"Porque não."
"Ela ficou moh chatiada D:"
"Fazer o que?"
"Posso ir ai? Ngm vai pra rua hj e eu preciso de ajuda em quimica. Vc eh bom, respondeu td na aula"
"Claro. Traga seus caderno e livro então."
Não custou muito até tocarem minha campainha. Ainda chovia, mas as gotas afinaram. Me apressei para que ele não se molhasse muito. Levei-o até a cozinha. Perguntei se ele se importava em esperar eu passar um café - minha xícara diária -, ele disse que não. Enquanto eu fervia a água, indagou:
- Você não gosta dela?
- Oi?
- Da Letícia...
- Não é isso, Gabriel....
- Então o que é?
- Só não quis, oras. - Virei o rosto para a panela.
- Você nunca beijou né?
- AHN?! Claro que já!
- Não me engana esse olhar. Mas fica sussa, eu também nunca.
- Posso te perguntar uma coisa? Você só veio falar comigo por causa dela?
- Quando eu te vi na rua, sorri porque quis. Eu sempre tento ser simpático. Só na escola que fui mais desesperado, porque ela já estava me pressionando pra agitar vocês.
- A menina mal me viu e já quis ficar comigo? Nossa. Enfim, pega seu livro. Vamos começar. - O bule estava apitando.
- Mas que fique claro: falo com você porque te acho legal. Se vocês derem certo ou não, não tem a ver comigo vir falar com você, ok?
Eu teria que refletir sobre aquilo. Nunca pude entender essa obsessão das pessoas por coisas que nem tiveram contanto. Mas agora, podia tatear um novo nível disso: pessoas quererem pessoas quando mal as veem. Como podia isso?
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