quarta-feira, 13 de junho de 2012

VI

VI - Obessão
"Não se deseja aquilo que não se conhece."
(Ovídio)

        Broxei. Mesmo. Será que se Letícia não tivesse me querido, Gabriel não teria vindo falar comigo?  Não podia expor isso, não era a hora certa. Se fosse falar, deixaria para quando o assunto viesse à tona. Ele voltou, conferiu a mensagem. Certamente notou que alguém tinha aberto-a, mas não falou nada. Apenas lançou um olhar dúbio a mim, e eu, simulado, respondi com o mesmo olhar.
        Até o fim do dia, ele continuou falando de Letícia. Agora fazia sentido o porquê de toda aquela descrição - demasiadamente idealizada, beirando a perfeição. E já não ligava tanto pro que ele falava dela.
Quando as aulas acabaram e íamos embora, Letícia apareceu e se convidou para ir conosco. Gabriel disse que ficaria no colégio para resolver uns assuntos com o coordenador. Eu não pude deixar de ir com ela. E fomos, só eu e ela, mas eu não estava confortável com isso. Ela falava, muito, como sempre. O clima não estava me ajudando: começou a chover, e nós só tínhamos um único guarda-chuva. Quando o abri, ela se agarrou em meu braço, com tanta vontade que quase tomou-o para ela. E ela continuou falando. Até então, não me incomodava o falatório, mas ela entrou num assunto desagradável:
        -Então... Você namora?
        - Não.
        - Tá ficando com alguém?
        - Não também.
        - Tá a fim de alguém?
        - Não. Até porque, não deixei nenhum amor para trás na minha cidade natal, e não poderia gostar de alguém por aqui sem mal conhecer as pessoas, concorda?
        - Haha. Você é um lindo mesmo.
        Agora não daria pra evitar. Ela entraria naquele assunto, e eu não saberia o que responder. Em minha mente, já tinha feito um roteiro para essa cena, mas ela não o seguiria, afinal, além de não ser atriz, o roteiro só se passava em minha mente.
        - Obrigado. - Corei um pouco. Me virei para ela para agradecer com um sorriso e me deparei com seu rosto colado ao meu. Seria uma linda cena para um filme babaca de adolescentes.
        - Me beija? - Murmurou e começou a aproximar seu rosto do meu.
        Eu via seus lábios se aproximarem e estava estático. Não sabia o que fazer. Muito se passou pela minha cabeça, muita coisa sem pé nem cabeça, aliás - daria um belo quadro surrealista, ou ainda um poema dadaísta - e eu não sabia se deveria recusar ou não. Eu nunca tinha beijado alguém, talvez porque nunca vi sentido em beijar estranhos ou porque nunca ninguém quis me beijar. Virei o rosto. Não pude ver sua expressão, mas aposto que foi decepção.
        - Desculpa.
        - Por que não?
        - Porque não faz sentido. Se você gosta de mim a esse ponto, eu não.
        O clima dentro do guarda-chuva ficou mais tenso e pesado que fora dele. Os trovões ao fundo não se comparavam ao que Letícia devia ter sentido de mim. Levei ela até a porta de sua casa, e ela se despediu com um simplório e medíocre "Tchau", que escapou quase que sem vontade de sua boca. Eu fui depressa para casa. Teria que refletir sobre o que acabara de acontecer.
        Felizmente, aquela tarde seria tediosa. O pessoal não se reuniria: a maioria tinha prova(s) de recuperação no dia seguinte, e iam passar a tarde estudando. Sorte minha, precisava temperar aquela tarde chuvosa com um pouco de tédio. Não que eu goste de tédio, mas o tédio move os filósofos, e os filósofos refletem. E eu tinha o que refletir.
        Cheguei em casa. Minha mãe não havia chegado ainda, e só chegaria tarde, já que havia um congresso, ou seria reunião? em seu trabalho. Fui para meu quarto. Me troquei e deitei em minha cama. Coloquei minhas coisas no criado-mudo e comecei a pensar no ocorrido, mas fui interrompido por uma mensagem de texto. Era Gabriel.
        "Vc ñ ficou com ela? :/" - Fico um tanto irritado com quem digita assim.
        "Não."
        "Pq?"
        "Porque não."
        "Ela ficou moh chatiada D:"
        "Fazer o que?"
        "Posso ir ai? Ngm vai pra rua hj e eu preciso de ajuda em quimica. Vc eh bom, respondeu td na aula"
        "Claro. Traga seus caderno e livro então."
        Não custou muito até tocarem minha campainha. Ainda chovia, mas as gotas afinaram. Me apressei para que ele não se molhasse muito. Levei-o até a cozinha. Perguntei se ele se importava em esperar eu passar um café - minha xícara diária -, ele disse que não. Enquanto eu fervia a água, indagou:
        - Você não gosta dela?
        - Oi?
        - Da Letícia...
        - Não é isso, Gabriel....
        - Então o que é?
        - Só não quis, oras. - Virei o rosto para a panela.
        - Você nunca beijou né?
        - AHN?! Claro que já!
        - Não me engana esse olhar. Mas fica sussa, eu também nunca.
        - Posso te perguntar uma coisa? Você só veio falar comigo por causa dela?
        - Quando eu te vi na rua, sorri porque quis. Eu sempre tento ser simpático. Só na escola que fui mais desesperado, porque ela já estava me pressionando pra agitar vocês.
        - A menina mal me viu e já quis ficar comigo? Nossa. Enfim, pega seu livro. Vamos começar. - O bule estava apitando.
        - Mas que fique claro: falo com você porque te acho legal. Se vocês derem certo ou não, não tem a ver comigo vir falar com você, ok?
        Eu teria que refletir sobre aquilo. Nunca pude entender essa obsessão das pessoas por coisas que nem tiveram contanto. Mas agora, podia tatear um novo nível disso: pessoas quererem pessoas quando mal as veem. Como podia isso?

terça-feira, 5 de junho de 2012

V

V - Interesse
"Os interesses particulares fazem esquecer facilmente os interesses públicos."
(Charles-Louis de Secondatt, barão de Montesquieu)

        Maldito despertador! Não detesto acordar cedo, mas detesto ser acordado por esse aparelho infernal...Resmunguei um pouco, xinguei - sempre acalma - e fui lavar o rosto. O dia seria longo, muita coisa seria nova... Meu humor estava maravilhoso!... Olhei para o espelho e vi a careta que fazia. Mudei a expressão. De ódio, foi para indiferença. Arrumei meu cabelo, escovei meus dentes, me vesti, juntei meu material escolar e desci para a cozinha. Minha mãe preparava o café.
        "Animado?" ela perguntou. Murmurei alguma coisa e me sentei à mesa. Minha mãe passou o café e encheu minha garrafa térmica; eu comia queijo.
        - Melhora esse humor. Hoje não é dia para estar revoltado.
        - Quer que saia com um sorriso estampado na cara? Não de manhã.
        - Como espera que faça amigos?
        - Já esperei alguma vez isso? - Como ela odiou ouvir isso. Fechou a cara.
        Todos da rua estudavam no mesmo colégio que eu estaria indo, e costumavam ir juntos. Alguns iam mais cedo, para fazer uma social, outros mais tarde, perto da hora da primeira aula. Gabriel disse que iria comigo, já que era meu primeiro dia. Queria ter um tempinho a sós com ele, para esclarecer umas coisas.
        Me despedi de minha mãe e saí de casa. O céu estava escuro - nublado! -, apesar das oito horas e tantas. Fechei meu agasalho, pois fazia frio. Ao dobrar a esquina, vi Gabriel se aproximando, e para minha surpresa e descontentamento, com sua amiga. Ela vinha com um sorriso - o mesmo que minha mãe recomendou - no rosto, mas não a tornava mais simpática, nem fazia parecer que era. "E aê", ele disse. Ela me deu um beijo, com lábios grudentos de gloss.
        Fomos caminhando. Como de praxe, as pessoas não falavam muito - não as normais. Letícia conversava e ria, quase num monólogo, já que nem eu nem Gabriel replicávamos direito. Quando chegamos ao colégio, ela foi para sua sala enquanto eu e Gabriel íamos até a coordenadoria para pegar minha grade de aulas. Dividiria a sala com ele em quase todas as aulas. Enquanto íamos para a sala, que ficava no segundo andar, ele falava de sua amiga. Chegamos à sala e sentamos ao fundo - o professor cuspia.Gabriel continuava falando de sua amiga, de como ela era legal, bonita, inteligente, engraçada, e eu sem entender pra quê falar aquilo. Ele falou dela bastante tempo, até a hora do almoço. Enquanto falava comigo - sobre ela, eu só ouvia - trocava torpedos com alguém.
        Durante o almoço, ele deixou o celular em cima da mesa da cantina, onde comíamos. Uma hora, levantou e foi buscar algo. Uma mensagem nova havia chegado, e, provavelmente, era da mesma pessoa da manhã 
toda. Não me contive e fui conferir:

"Letícia - 12:03
Jah flou pra ele q qro ficar cm ele?" (Reprodução fiel)

        Agora fazia sentido. Tudo havia ficado mais claro: interesse. Ela me notara quando cheguei na rua, e agora me queria. Gabriel era só o canal para isso. Ele não tinha simpatizado por mim? Era só por causa dela? Decepção.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Nota #3

        A vida é um evento corrompido: o tempo corre em proporções diferentes em alguns momentos da vida. E são esses momentos que contém mais palavras, mais emoções, mais acontecimentos. Não porque houve mais, mas sim porque esses acontecimentos se passam devagar em nossas mentes, para que possamos saboreá-los.

IV

IV - Afeto
"A melhor parte da vida de uma pessoa está nas suas amizades."
(Abraham Lincoln)

        Conversamos alguns minutos: ela contava sobre a empresa e os outros funcionários, e eu só concordava "uhum", "sério?", mas minha cabeça estava lá fora, naquela rodinha de amigos, naquele sorriso, na minha timidez.
        - Me conta, como é a escola? - Ela perguntou.
        - Legal...
        - Legal?! - Ela se impressionou - Anos que não ouço isso de você.
        A campainha tocou. Meu coração acelerou. "É agora!", repetia em minha mente. Minha mãe se levantou e fui atender a porta. Voltou uns minutos depois, com um pacote. Era o correio, com uma encomenda. Fiquei um tanto desapontado. Eles não iam me chamar?
        - Mãe, acho que vou para a escola amanhã. O coordenador falou que eu poderia ir se quiser.
        - Você querendo escola? Quem é você e o que fez com meu filho? - Espantada.
        - Vou comprar folhas para o meu fichário. A livraria que fui ontém também é papelaria.
        - Aqui. - Ela tirou uma nota do bolso e me deu. - Pode comprar uma caneta se quiser, também...
        Peguei minhas chaves e carteira, meti-as no bolso e saí de casa. Ouvi minha mãe murmurar algo, mas já era tarde, pois estava fechando a porta.
        Não estava com vontade de ir à escola.Comprar folhas era só uma desculpa pra sair de casa, e também para caso perguntassem o que fazia na rua.
        O romance que estava lendo me deu uma nova visão. Começaria a dar uma chance às pessoas. Tentaria novos ambientes, novas atividades, novos lugares. E aquele grupo parecia uma ótima oportunidade de testar minha nova filosofia.
        Meu sobrado ficava na esquina, o portão dava para a rua lateral, a outra rua era a rua que levava à avenida. Quando dobrei a esquina, trombei Gabriel e uma menina, eles vinham me chamar.
        - Não aguentou esperar? - Ela se riu.
        - Ela é a Letícia; ele é o Pedro.
        - Prazer. - Simultâneos.
        Eles estavam passando na casa de todos grupo, chamando-os para a reunião diária. Me juntei a eles. Passamos por outras oito casas. Quando tinhamos chamado todos, fomos para a casa do Gabriel e ficamos na calçada em frente à ela. Todos se acomodaram e eu me apresentei ao grupo. Foi desesperador, mas o resultado foi maravilhoso: todos foram amigáveis comigo. Ficamos conversando até a noite, quando todos se recolheram. "Legais", era como os descreveria.
        Cheguei em casa e levei uma leve bronca de minha mãe. Por sorte, uma vizinha que vinha fazer amizade avisara a ela onde eu estava, caso contrário, a polícia estaria me procurando. Me desculpei pela irresponsabilidade e me retirei para meu quarto. Fui tomar banho, me troquei, e voltei a ler o romance. Mas algo não saía de minha cabeça.
        Todos no grupo foram muito bons comigo, mas em especial, Gabriel e sua amiga. Eles foram muito atenciosos comigo e fizeram questão de não me deixarem isolado no grupo. Foi a primeira vez que experimentava esse tipo de afeto. Era um sentimento muito bom.
        Porém, o que mais me estranhou foi todo esse amor de graça. Nenhum dos dois tinha me visto antes, mas já me tratavam tão bem. Não era possível existir todo esse amor sem nada em troca. Uma coisa é simpatia, outra é amor gratuito. Mas não ia me importar com isso. Não agora.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

III

III - Adaptação
"Em Roma, como os romanos."
(Ditado popular)

        Acordei tarde aquele dia. Era acostumado a acordar pouco após as oito, mas aquele dia acordei depois das dez, quase onze. Minha mãe não estava mais em casa, tinha saído cedo para o novo emprego. Desci para tomar meu café. Havia um bilhete sobre a mesa.
        "Bebê (odeio esse vocativo), anotei o endereço da sua escola e falei com o coordenador. Ele disse que você poderia ir visitá-la essa semana para ir se acostumando. Beijos, mãe."
        Não estava muito entusiasmado com a escola. Apesar de adorar estudar, nunca foi um ambiente de minha preferência. Nunca gostei muito de ficar preso numa sala por horas, exceto meu quarto. Mas iria mesmo assim, afinal, teria que ir pra escola de qualquer forma, e quanto antes me adaptasse ao ambiente, melhor.
        Me troquei e saí de casa. Eu levei o bilhete comigo, já que tinha o endereço e na parte de trás um pequeno mapa. Teria que seguir minha rua até onde ela cruzasse uma avenida.  No caminho, notei que aquele grupo não estava lá. E lembrei do menino que sorriu. Não lembrava sua fisionomia ao certo, mas se o visse novamente, lembraria. Cheguei à avenida que, aliás, era onde ficava a livraria, e a subi, até chegar à escola.
        Havia um segurança na frente do colégio, que me informou por onde entrar para falar com o coordenador. Havia dois portões distintos: um maior, que ficava na parte frontal da escola, por onde os alunos entravam e um menor, ao lado, por onde os funcionários entravam. Ele me levou até o portão lateral e pediu que chamassem o coordenador.
        - Bom dia, me chamo Rogério. Sou coordenador do colégio. Você deve ser o... Pedro, certo? Sua mãe veio aqui hoje.
        - Sim, sou eu. Prazer. - E apertei sua mão, que estendera para mim assim que se apresentou.
        Ele me mostrou o colégio inteiro, todas as salas de todos os andares que, aliás, estavam em aula. Senti muita vergonha, confesso, de passar pelas salas e várias pessoas ficarem olhando para mim e perdendo o foco da aula. Ficamos vendo a escola até a hora do almoço dos alunos, que beirava o meio-dia.
        O sinal disparou e um alvoroço começou: alguns alunos corriam para fora das salas, e um zumzumzum aterrador começou. O pátio e a cantina se encheram em questão de dois ou três minutos. Observei que grupos se juntavam no pátio e em alguns pontos dos corredores. Entre os diversos grupos, vi um que continha elementos já conhecidos. E o mesmo menino sorriu para mim novamente. O coordenador parou para conversar com uma aluna que havia chamado sua atenção, e o tal rapaz saiu de sua rodinha e veio até mim.
        - Você vai mudar pra cá?
        - Sim...
        - Que legal. - Seus olhos brilharam - Eu me chamo Gabriel. Você se mudou pra minha rua ontem, né?
        - É. Fui eu quem passou por você e seus amigos ontem.
        Gabriel ia dar uma réplica a meu comentário, mas o coordenador chamou e avisou que nosso tour havia acabado ali. Falou que se quisesse, poderia começar a frequentar a escola no dia seguinte. Gabriel ouviu isso e ficou com esperanças - ao menos seu semblante dizia isso. Mas eu não sabia se iria começar amanhã.
        - Posso te chamar hoje na sua casa? Um pessoal da nossa vizinhança se reúne depois das aulas e fica conversando na rua. Bom, você já notou isso, não é?
        Balancei a cabeça sem pensar, pois dei um sinal positivo, mas nem sabia se queria mesmo. Eu era tímido, e não me dava bem com grupos. De qualquer forma, o trato havia sido feito e ele provavelmente me chamaria mais tarde. Me despedi dele e o coordenador me levou até a saída.
        - Espero que tenha gostado do lugar e que venha frequentar nosso colégio! - Disse sorrindo, enquanto abanava a mão para mim.
        Voltei para casa pensativo. Tinha feito um colega na escola sem nem mesmo estudar lá. E fiquei intrigado: o que ele viu em mim? já que desde que cheguei à rua ele simpatizou comigo. Cheguei em casa e voltei a ler aquele romance comprado no dia anterior, deitado na minha cama. O sol estava a pino. Acabei dormindo durante a leitura. Um novo sonho branco, para preencher a soneca. Não tinha almoçado, então acordei pouco depois de duas horas. Estava faminto.
        Desci para a cozinha para arranjar um petisco, e vi na mesa uns papéis que o coordenador havia me dado durante a visita à escola. Entre eles, havia uma grade de aulas, que determinava que as aulas acabavam entre quatro e cinco horas. Ainda eram três. Eu estava animado, mas ao mesmo tempo preocupado, com o convite feito por Gabriel. Não sabia se me entrosaria bem com os demais do grupo; não sabia se gostariam de mim. Essa dualidade emocional resultou numa ansiedade, que me corroeu até as cinco, quando minha mãe chegou em casa.
        Eu estava sentado na mesa da cozinha, examinando o jornal local, lendo as notícias - pacatas - da cidade. Minha mãe estranhou, já que nunca lia jornais. Me deu um beijo no rosto, subiu e, num piscar de olhos, se trocou e desceu, deixando sua bolsa e materiais do trabalho em seu cômodo. Ia fazer o café. Esperei ali para conversar com ela. Quando o café ficou pronto, ela serviu e conversamos. Adorou o emprego.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Nota #2

         Minha casa velha era tão pequena, ou grande, quanto a nova.Não era tão organizada, porém. Não foi muita diferença mudar de casa, nem de cidade, mas não era... necessário. O emprego da minha mãe era bom, não era cansativo, pra que mudar? Minha escola era boa, nossa cidade era boa... Pra quê? Acho que o ser humano não aprendeu a mudar. Perdão Darwin, não conseguimos seguir o que você diz, é muito difícil. Talvez em milhares de anos aprendamos, não?

II

 Cap. II - Novos olhares a se olhar
As mudanças nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor.
(Richard Hooker)

        Mudanças nem sempre são bem aceitas. Por melhor que sejam, são sempre difíceis. Eu nunca tinha mudado de casa, muito menos de cidade. Era tudo diferente, era um mundo novo, com pessoas novas, lugares novos... Tudo novo.
Eu não estava animado. Minha mãe estava: emprego novo, casa nova... mas eu não. Não que tivesse deixado nada para trás na casa velha, mas eu não. Não via motivo para a mudança.
        - Você não está nada feliz com a mudança, né, filho?
        - Sendo sincero, não.
        - Mas como? Deixou algo lá que te faz falta?
        - Não, mas acho essa mudança desnecessária.
        Ela ficou meio brava, e meio chateada, mas ela mesma quem pediu a resposta. Ela sempre dizia que eu era muito seco, e muito ríspido, mas tem certas perguntas que pedem esse tom, não é mesmo?
        Eu estava desesperado dentro daquele carro. Quatro horas atado a um cinto no banco da frente, ouvindo minha mãe fazer um cover dos anos oitenta ao vivo, e, infelizmente, sem tratamento de voz – ou seja, uma desgraça. Eu sempre fui um tanto claustrofóbico, e aquela situação me fazia muito mal.
        Chegamos à nossa nova casa e eu comemorei. Minha mãe pensou, provavelmente, que era de alegria pela moradia, mas era por sair daquela tortura. Olhei, entrei, explorei a casa, e não tinha muito pra se ver: era um sobrado azul, pequeno; os cômodos eram estreitos, mas confortáveis; aos fundos, junto à área de serviço havia um jardim depredado. A casa, felizmente, já estava mobiliada, já que minha mãe programou essa mudança há um mês, e a mudança começou a uma semana. Cheguei ao meu quarto, e deitei assim que cheguei. Deitei e dormi. Dormi e sonhei, um sonho meio branco, sem cor, sem conteúdo, sem nada. Era um sonho que só estava preenchendo a soneca.
        Acordei algumas horas depois, já era tarde – havíamos chegado perto da hora do almoço – e minha mãe já estava preparando café. Quando senti o cheiro dele, desci correndo para a cozinha e pedi uma xícara. Sempre gostei de café, já que me deixa mais animado para fazer minhas coisas. Mas para cada uma, era uma xícara. Como não tinha nada para fazer aquele dia, sentei com ela à mesa e ficamos conversando eu e minha mãe. Entre um assunto e outro, ela me lança:
        - Na nossa rua tem alguns adolescentes. Devem ser da sua idade.
        - É? Uau. – Meu tédio estava transbordando pela minha face. E isso incomodou minha mãe.
        - Não sei o que você tem contra as pessoas, nossa!
        - Nada, mas não tenho nada a favor também. Zero a zero.
        - De qualquer forma, seria bom fazer amizade com alguém. Ir sozinho para seu novo colégio vai ser bem chato, não?
        - Indiferente. – Tomei meu último gole – Vou sair e procurar uma livraria. Preciso de algo novo pra comemorar nossa mudança. – Ela também não curtiu muito a ironia.
        Eu saí. Nossa rua era sossegada: sem muitos carros, sem muitos barulhos, quase um templo budista. Minha mãe comentou sobre adolescentes, mas eu não via nenhum. Provavelmente ela só jogou um verde. Eu estava caminhando pela calçada e vi alguns meninos, meninas?, conversando. Passei perto deles e todos olharam, como se um alien tivesse pousado ali. Um dos rapazes ali sorriu para mim, os outros continuaram olhando, intrigados... Achei uma livraria, estava quase fechando. Comprei um livro, voltei para a casa. No caminho, os vi novamente. O mesmo sorriu para mim.
        Cheguei em casa, troquei algumas palavras com minha mãe, subi para o meu quarto e fui ler. Passei a noite toda lendo; ainda ouvi minha mãe chamar para o jantar, mas recusei. Quando parei na metade do romance, já era quase meia-noite. Troquei minha roupa, apaguei as luzes e fui dormir. Fiquei pensando naquele sorriso, pareceu-me simpático. Acho que não custaria nada sorrir de volta outro dia...

Nota #1

         Toda personalidade é feita de "nãos". Mais "nãos" que "sins". Todos preferimos nos descrever negando o que não somos que dizendo o que somos. "Não", "nunca", "nem" são as palavras mais fáceis de definir alguém.

I

 Cap. I - Não
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
(Álvaro de Campos; Eu, eu mesmo)


        Então o botão se abriu, e eu era flor. Tinha acabado de me descobrir. Não que tivesse me perdido de mim mesmo, não, mas nunca tinha encontrado minha essência por inteiro. Quinze anos de espera para notar tudo o que sou, e tudo que sempre fui. O que serei - ou não -, ainda não sei.
        Desde nunca fui um menino como tantos outros: não jogava futebol, não me divertia batendo em outros, não gostava de carros e caminhões de brinquedo; não que gostasse de bonecas ou de rebolar um bambolê, também não. Gostava de desenhar, de moldar, de pintar. Tudo que fosse mexesse mais com a criatividade que com a atividade. Criar nunca foi atividade de crianças normais. Acho que nunca fui normal, então.
        Nunca tive muitos amigos, um ou dois, três de vez em quando. Não via interesse em outras pessoas, amizades eram "descartáveis". Acho que não sabia dar valor a elas por sempre ficar sozinho.
        Nunca fui de estudar. Não estudava e não estudo ainda, acho uma perda de tempo. Pordoai a arrogância, mas sempre fui inteligente: boas notas, trabalhos exemplares, reconhecimento dos mestres. Eu sabia que um dia isso me prejudicaria, mas, screw it.
        Não sou bonito - isso não é uma idealização -, já fui quando criança. Não sou gordo ou magro, alto ou baixo. Sou como um elo perdido: fico entre o oito e o oitenta. Não me encaixo em muitas qualidades, nem em muitos defeitos, mas fico no meio deles.
       Não gostava do quintal, nem da rua. Gostava do meu quarto, do conforto da minha casa. Me entretinha sozinho, no entanto, já que era o único a pensar assim. Ler, jogar, qualquer coisa feita entre as paredes de meu lar me fazia sentir melhor que sob o puro céu dessa Terra.