Cap. II - Novos olhares a se olhar
As mudanças nunca ocorrem sem inconvenientes, até mesmo do pior para o melhor.
(Richard Hooker)
Mudanças nem sempre são bem aceitas. Por melhor que sejam,
são sempre difíceis. Eu nunca tinha mudado de casa, muito menos de cidade. Era
tudo diferente, era um mundo novo, com pessoas novas, lugares novos... Tudo
novo.
Eu não estava animado. Minha mãe estava: emprego novo, casa
nova... mas eu não. Não que tivesse deixado nada para trás na casa velha, mas
eu não. Não via motivo para a mudança.
- Você não está nada feliz com a mudança, né, filho?
- Sendo sincero, não.
- Mas como? Deixou algo lá que te faz falta?
- Não, mas acho essa mudança desnecessária.
Ela ficou meio brava, e meio chateada, mas ela mesma quem
pediu a resposta. Ela sempre dizia que eu era muito seco, e muito ríspido, mas
tem certas perguntas que pedem esse tom, não é mesmo?
Eu estava desesperado dentro daquele carro. Quatro horas
atado a um cinto no banco da frente, ouvindo minha mãe fazer um cover dos anos
oitenta ao vivo, e, infelizmente, sem tratamento de voz – ou seja, uma desgraça.
Eu sempre fui um tanto claustrofóbico, e aquela situação me fazia muito mal.
Chegamos à nossa nova casa e eu comemorei. Minha mãe pensou,
provavelmente, que era de alegria pela moradia, mas era por sair daquela
tortura. Olhei, entrei, explorei a casa, e não tinha muito pra se ver: era um
sobrado azul, pequeno; os cômodos eram estreitos, mas confortáveis; aos fundos,
junto à área de serviço havia um jardim depredado. A casa, felizmente, já
estava mobiliada, já que minha mãe programou essa mudança há um mês, e a
mudança começou a uma semana. Cheguei ao meu quarto, e deitei assim que cheguei. Deitei e
dormi. Dormi e sonhei, um sonho meio branco, sem cor, sem conteúdo, sem nada.
Era um sonho que só estava preenchendo a soneca.
Acordei algumas horas depois, já era tarde – havíamos chegado
perto da hora do almoço – e minha mãe já estava preparando café. Quando senti o
cheiro dele, desci correndo para a cozinha e pedi uma xícara. Sempre gostei de
café, já que me deixa mais animado para fazer minhas coisas. Mas para cada uma,
era uma xícara. Como não tinha nada para fazer aquele dia, sentei com ela à
mesa e ficamos conversando eu e minha mãe. Entre um assunto e outro, ela me
lança:
- Na nossa rua tem alguns adolescentes. Devem ser da sua
idade.
- É? Uau. – Meu tédio estava transbordando pela minha face.
E isso incomodou minha mãe.
- Não sei o que você tem contra as pessoas, nossa!
- Nada, mas não tenho nada a favor também. Zero a zero.
- De qualquer forma, seria bom fazer amizade com alguém. Ir
sozinho para seu novo colégio vai ser bem chato, não?
- Indiferente. – Tomei meu último gole – Vou sair e procurar
uma livraria. Preciso de algo novo pra comemorar nossa mudança. – Ela também
não curtiu muito a ironia.
Eu saí. Nossa rua era sossegada: sem muitos carros, sem
muitos barulhos, quase um templo budista. Minha mãe comentou sobre
adolescentes, mas eu não via nenhum. Provavelmente ela só jogou um verde. Eu
estava caminhando pela calçada e vi alguns meninos, meninas?, conversando.
Passei perto deles e todos olharam, como se um alien tivesse pousado ali. Um
dos rapazes ali sorriu para mim, os outros continuaram olhando, intrigados... Achei
uma livraria, estava quase fechando. Comprei um livro, voltei para a casa. No
caminho, os vi novamente. O mesmo sorriu para mim.
Cheguei em casa, troquei algumas palavras com minha mãe,
subi para o meu quarto e fui ler. Passei a noite toda lendo; ainda ouvi minha
mãe chamar para o jantar, mas recusei. Quando parei na metade do romance, já
era quase meia-noite. Troquei minha roupa, apaguei as luzes e fui dormir.
Fiquei pensando naquele sorriso, pareceu-me simpático. Acho que não custaria
nada sorrir de volta outro dia...
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