quinta-feira, 31 de maio de 2012

IV

IV - Afeto
"A melhor parte da vida de uma pessoa está nas suas amizades."
(Abraham Lincoln)

        Conversamos alguns minutos: ela contava sobre a empresa e os outros funcionários, e eu só concordava "uhum", "sério?", mas minha cabeça estava lá fora, naquela rodinha de amigos, naquele sorriso, na minha timidez.
        - Me conta, como é a escola? - Ela perguntou.
        - Legal...
        - Legal?! - Ela se impressionou - Anos que não ouço isso de você.
        A campainha tocou. Meu coração acelerou. "É agora!", repetia em minha mente. Minha mãe se levantou e fui atender a porta. Voltou uns minutos depois, com um pacote. Era o correio, com uma encomenda. Fiquei um tanto desapontado. Eles não iam me chamar?
        - Mãe, acho que vou para a escola amanhã. O coordenador falou que eu poderia ir se quiser.
        - Você querendo escola? Quem é você e o que fez com meu filho? - Espantada.
        - Vou comprar folhas para o meu fichário. A livraria que fui ontém também é papelaria.
        - Aqui. - Ela tirou uma nota do bolso e me deu. - Pode comprar uma caneta se quiser, também...
        Peguei minhas chaves e carteira, meti-as no bolso e saí de casa. Ouvi minha mãe murmurar algo, mas já era tarde, pois estava fechando a porta.
        Não estava com vontade de ir à escola.Comprar folhas era só uma desculpa pra sair de casa, e também para caso perguntassem o que fazia na rua.
        O romance que estava lendo me deu uma nova visão. Começaria a dar uma chance às pessoas. Tentaria novos ambientes, novas atividades, novos lugares. E aquele grupo parecia uma ótima oportunidade de testar minha nova filosofia.
        Meu sobrado ficava na esquina, o portão dava para a rua lateral, a outra rua era a rua que levava à avenida. Quando dobrei a esquina, trombei Gabriel e uma menina, eles vinham me chamar.
        - Não aguentou esperar? - Ela se riu.
        - Ela é a Letícia; ele é o Pedro.
        - Prazer. - Simultâneos.
        Eles estavam passando na casa de todos grupo, chamando-os para a reunião diária. Me juntei a eles. Passamos por outras oito casas. Quando tinhamos chamado todos, fomos para a casa do Gabriel e ficamos na calçada em frente à ela. Todos se acomodaram e eu me apresentei ao grupo. Foi desesperador, mas o resultado foi maravilhoso: todos foram amigáveis comigo. Ficamos conversando até a noite, quando todos se recolheram. "Legais", era como os descreveria.
        Cheguei em casa e levei uma leve bronca de minha mãe. Por sorte, uma vizinha que vinha fazer amizade avisara a ela onde eu estava, caso contrário, a polícia estaria me procurando. Me desculpei pela irresponsabilidade e me retirei para meu quarto. Fui tomar banho, me troquei, e voltei a ler o romance. Mas algo não saía de minha cabeça.
        Todos no grupo foram muito bons comigo, mas em especial, Gabriel e sua amiga. Eles foram muito atenciosos comigo e fizeram questão de não me deixarem isolado no grupo. Foi a primeira vez que experimentava esse tipo de afeto. Era um sentimento muito bom.
        Porém, o que mais me estranhou foi todo esse amor de graça. Nenhum dos dois tinha me visto antes, mas já me tratavam tão bem. Não era possível existir todo esse amor sem nada em troca. Uma coisa é simpatia, outra é amor gratuito. Mas não ia me importar com isso. Não agora.

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