quarta-feira, 30 de maio de 2012

III

III - Adaptação
"Em Roma, como os romanos."
(Ditado popular)

        Acordei tarde aquele dia. Era acostumado a acordar pouco após as oito, mas aquele dia acordei depois das dez, quase onze. Minha mãe não estava mais em casa, tinha saído cedo para o novo emprego. Desci para tomar meu café. Havia um bilhete sobre a mesa.
        "Bebê (odeio esse vocativo), anotei o endereço da sua escola e falei com o coordenador. Ele disse que você poderia ir visitá-la essa semana para ir se acostumando. Beijos, mãe."
        Não estava muito entusiasmado com a escola. Apesar de adorar estudar, nunca foi um ambiente de minha preferência. Nunca gostei muito de ficar preso numa sala por horas, exceto meu quarto. Mas iria mesmo assim, afinal, teria que ir pra escola de qualquer forma, e quanto antes me adaptasse ao ambiente, melhor.
        Me troquei e saí de casa. Eu levei o bilhete comigo, já que tinha o endereço e na parte de trás um pequeno mapa. Teria que seguir minha rua até onde ela cruzasse uma avenida.  No caminho, notei que aquele grupo não estava lá. E lembrei do menino que sorriu. Não lembrava sua fisionomia ao certo, mas se o visse novamente, lembraria. Cheguei à avenida que, aliás, era onde ficava a livraria, e a subi, até chegar à escola.
        Havia um segurança na frente do colégio, que me informou por onde entrar para falar com o coordenador. Havia dois portões distintos: um maior, que ficava na parte frontal da escola, por onde os alunos entravam e um menor, ao lado, por onde os funcionários entravam. Ele me levou até o portão lateral e pediu que chamassem o coordenador.
        - Bom dia, me chamo Rogério. Sou coordenador do colégio. Você deve ser o... Pedro, certo? Sua mãe veio aqui hoje.
        - Sim, sou eu. Prazer. - E apertei sua mão, que estendera para mim assim que se apresentou.
        Ele me mostrou o colégio inteiro, todas as salas de todos os andares que, aliás, estavam em aula. Senti muita vergonha, confesso, de passar pelas salas e várias pessoas ficarem olhando para mim e perdendo o foco da aula. Ficamos vendo a escola até a hora do almoço dos alunos, que beirava o meio-dia.
        O sinal disparou e um alvoroço começou: alguns alunos corriam para fora das salas, e um zumzumzum aterrador começou. O pátio e a cantina se encheram em questão de dois ou três minutos. Observei que grupos se juntavam no pátio e em alguns pontos dos corredores. Entre os diversos grupos, vi um que continha elementos já conhecidos. E o mesmo menino sorriu para mim novamente. O coordenador parou para conversar com uma aluna que havia chamado sua atenção, e o tal rapaz saiu de sua rodinha e veio até mim.
        - Você vai mudar pra cá?
        - Sim...
        - Que legal. - Seus olhos brilharam - Eu me chamo Gabriel. Você se mudou pra minha rua ontem, né?
        - É. Fui eu quem passou por você e seus amigos ontem.
        Gabriel ia dar uma réplica a meu comentário, mas o coordenador chamou e avisou que nosso tour havia acabado ali. Falou que se quisesse, poderia começar a frequentar a escola no dia seguinte. Gabriel ouviu isso e ficou com esperanças - ao menos seu semblante dizia isso. Mas eu não sabia se iria começar amanhã.
        - Posso te chamar hoje na sua casa? Um pessoal da nossa vizinhança se reúne depois das aulas e fica conversando na rua. Bom, você já notou isso, não é?
        Balancei a cabeça sem pensar, pois dei um sinal positivo, mas nem sabia se queria mesmo. Eu era tímido, e não me dava bem com grupos. De qualquer forma, o trato havia sido feito e ele provavelmente me chamaria mais tarde. Me despedi dele e o coordenador me levou até a saída.
        - Espero que tenha gostado do lugar e que venha frequentar nosso colégio! - Disse sorrindo, enquanto abanava a mão para mim.
        Voltei para casa pensativo. Tinha feito um colega na escola sem nem mesmo estudar lá. E fiquei intrigado: o que ele viu em mim? já que desde que cheguei à rua ele simpatizou comigo. Cheguei em casa e voltei a ler aquele romance comprado no dia anterior, deitado na minha cama. O sol estava a pino. Acabei dormindo durante a leitura. Um novo sonho branco, para preencher a soneca. Não tinha almoçado, então acordei pouco depois de duas horas. Estava faminto.
        Desci para a cozinha para arranjar um petisco, e vi na mesa uns papéis que o coordenador havia me dado durante a visita à escola. Entre eles, havia uma grade de aulas, que determinava que as aulas acabavam entre quatro e cinco horas. Ainda eram três. Eu estava animado, mas ao mesmo tempo preocupado, com o convite feito por Gabriel. Não sabia se me entrosaria bem com os demais do grupo; não sabia se gostariam de mim. Essa dualidade emocional resultou numa ansiedade, que me corroeu até as cinco, quando minha mãe chegou em casa.
        Eu estava sentado na mesa da cozinha, examinando o jornal local, lendo as notícias - pacatas - da cidade. Minha mãe estranhou, já que nunca lia jornais. Me deu um beijo no rosto, subiu e, num piscar de olhos, se trocou e desceu, deixando sua bolsa e materiais do trabalho em seu cômodo. Ia fazer o café. Esperei ali para conversar com ela. Quando o café ficou pronto, ela serviu e conversamos. Adorou o emprego.

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