III - Adaptação
"Em Roma, como os romanos."
(Ditado popular)
Acordei tarde aquele dia. Era acostumado a acordar pouco após as oito, mas
aquele dia acordei depois das dez, quase onze. Minha mãe não estava mais em
casa, tinha saído cedo para o novo emprego. Desci para tomar meu café. Havia um
bilhete sobre a mesa.
"Bebê (odeio esse vocativo), anotei o endereço da sua escola e falei com o
coordenador. Ele disse que você poderia ir visitá-la essa semana para ir se
acostumando. Beijos, mãe."
Não
estava muito entusiasmado com a escola. Apesar de adorar estudar, nunca foi um
ambiente de minha preferência. Nunca gostei muito de ficar preso numa sala por
horas, exceto meu quarto. Mas iria mesmo assim, afinal, teria que ir pra escola
de qualquer forma, e quanto antes me adaptasse ao ambiente, melhor.
Me
troquei e saí de casa. Eu levei o bilhete comigo, já que tinha o endereço e na
parte de trás um pequeno mapa. Teria que seguir minha rua até onde ela cruzasse
uma avenida. No caminho, notei que aquele grupo não estava lá. E lembrei
do menino que sorriu. Não lembrava sua fisionomia ao certo, mas se o visse
novamente, lembraria. Cheguei à avenida que, aliás, era onde ficava a livraria,
e a subi, até chegar à escola.
Havia
um segurança na frente do colégio, que me informou por onde entrar para falar
com o coordenador. Havia dois portões distintos: um maior, que ficava na parte
frontal da escola, por onde os alunos entravam e um menor, ao lado, por onde os
funcionários entravam. Ele me levou até o portão lateral e pediu que chamassem
o coordenador.
- Bom
dia, me chamo Rogério. Sou coordenador do colégio. Você deve ser o... Pedro,
certo? Sua mãe veio aqui hoje.
- Sim,
sou eu. Prazer. - E apertei sua mão, que estendera para mim assim que se
apresentou.
Ele me
mostrou o colégio inteiro, todas as salas de todos os andares que, aliás,
estavam em aula. Senti muita vergonha, confesso, de passar pelas salas e várias
pessoas ficarem olhando para mim e perdendo o foco da aula. Ficamos vendo a
escola até a hora do almoço dos alunos, que beirava o meio-dia.
O
sinal disparou e um alvoroço começou: alguns alunos corriam para fora das
salas, e um zumzumzum aterrador começou. O pátio e a cantina se encheram em
questão de dois ou três minutos. Observei que grupos se juntavam no pátio e em
alguns pontos dos corredores. Entre os diversos grupos, vi um que continha
elementos já conhecidos. E o mesmo menino sorriu para mim novamente. O
coordenador parou para conversar com uma aluna que havia chamado sua atenção, e
o tal rapaz saiu de sua rodinha e veio até mim.
- Você
vai mudar pra cá?
-
Sim...
- Que
legal. - Seus olhos brilharam - Eu me chamo Gabriel. Você se mudou pra minha
rua ontem, né?
- É.
Fui eu quem passou por você e seus amigos ontem.
Gabriel ia dar uma réplica a meu comentário, mas o coordenador chamou e avisou
que nosso tour havia acabado ali. Falou que se quisesse, poderia começar
a frequentar a escola no dia seguinte. Gabriel ouviu isso e ficou com
esperanças - ao menos seu semblante dizia isso. Mas eu não sabia se iria
começar amanhã.
-
Posso te chamar hoje na sua casa? Um pessoal da nossa vizinhança se reúne
depois das aulas e fica conversando na rua. Bom, você já notou isso, não é?
Balancei a cabeça sem pensar, pois dei um sinal positivo, mas nem sabia se
queria mesmo. Eu era tímido, e não me dava bem com grupos. De qualquer forma, o
trato havia sido feito e ele provavelmente me chamaria mais tarde. Me despedi
dele e o coordenador me levou até a saída.
-
Espero que tenha gostado do lugar e que venha frequentar nosso colégio! - Disse
sorrindo, enquanto abanava a mão para mim.
Voltei
para casa pensativo. Tinha feito um colega na escola sem nem mesmo estudar lá.
E fiquei intrigado: o que ele viu em mim? já que desde que cheguei à rua ele
simpatizou comigo. Cheguei em casa e voltei a ler aquele romance comprado no
dia anterior, deitado na minha cama. O sol estava a pino. Acabei dormindo
durante a leitura. Um novo sonho branco, para preencher a soneca. Não tinha
almoçado, então acordei pouco depois de duas horas. Estava faminto.
Desci
para a cozinha para arranjar um petisco, e vi na mesa uns papéis que o coordenador
havia me dado durante a visita à escola. Entre eles, havia uma grade de aulas,
que determinava que as aulas acabavam entre quatro e cinco horas. Ainda eram
três. Eu estava animado, mas ao mesmo tempo preocupado, com o convite feito por
Gabriel. Não sabia se me entrosaria bem com os demais do grupo; não sabia se
gostariam de mim. Essa dualidade emocional resultou numa ansiedade, que me
corroeu até as cinco, quando minha mãe chegou em casa.
Eu
estava sentado na mesa da cozinha, examinando o jornal local, lendo as notícias
- pacatas - da cidade. Minha mãe estranhou, já que nunca lia jornais. Me deu um
beijo no rosto, subiu e, num piscar de olhos, se trocou e desceu, deixando sua
bolsa e materiais do trabalho em seu cômodo. Ia fazer o café. Esperei ali para
conversar com ela. Quando o café ficou pronto, ela serviu e conversamos. Adorou
o emprego.
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