Cap. I - Não
Eu... Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
(Álvaro de Campos; Eu, eu mesmo)
Então o botão se abriu, e eu era flor. Tinha acabado de me descobrir. Não que tivesse me perdido de mim mesmo, não, mas nunca tinha encontrado minha essência por inteiro. Quinze anos de espera para notar tudo o que sou, e tudo que sempre fui. O que serei - ou não -, ainda não sei.
Desde nunca fui um menino como tantos outros: não jogava futebol, não me divertia batendo em outros, não gostava de carros e caminhões de brinquedo; não que gostasse de bonecas ou de rebolar um bambolê, também não. Gostava de desenhar, de moldar, de pintar. Tudo que fosse mexesse mais com a criatividade que com a atividade. Criar nunca foi atividade de crianças normais. Acho que nunca fui normal, então.
Nunca tive muitos amigos, um ou dois, três de vez em quando. Não via interesse em outras pessoas, amizades eram "descartáveis". Acho que não sabia dar valor a elas por sempre ficar sozinho.
Nunca fui de estudar. Não estudava e não estudo ainda, acho uma perda de tempo. Pordoai a arrogância, mas sempre fui inteligente: boas notas, trabalhos exemplares, reconhecimento dos mestres. Eu sabia que um dia isso me prejudicaria, mas, screw it.
Não sou bonito - isso não é uma idealização -, já fui quando criança. Não sou gordo ou magro, alto ou baixo. Sou como um elo perdido: fico entre o oito e o oitenta. Não me encaixo em muitas qualidades, nem em muitos defeitos, mas fico no meio deles.
Não gostava do quintal, nem da rua. Gostava do meu quarto, do conforto da minha casa. Me entretinha sozinho, no entanto, já que era o único a pensar assim. Ler, jogar, qualquer coisa feita entre as paredes de meu lar me fazia sentir melhor que sob o puro céu dessa Terra.
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